quarta-feira, abril 27, 2011

Nós e Laços, Paixão e Amor

Quando nascemos, o fio que nos ligava à origem mãe foi cortado. O primeiro nó é o umbigo, ônfalo, memoria da origem, nó cego, dado para estancar a ferida aberta da primeira e definitiva perda.

Quando Apolo divide os andróginos em dois, a mando de Zeus, o umbigo é deixado como registro da nossa condição de fendido, cortado, para nos lembrar da impossibilidade de completude, condição exclusiva dos deuses.
Incapazes de aceitar tal desamparo, cremos na possibilidade de religação, iludidos pela possibilidade da construção de um “nós”, pronome da 1a pessoa do plural. Tal busca se condena ao fracasso quando queremos fazer, da nossa relação com o outro, um nó.
Inseguros pela angústia da primeira perda, buscamos prender o outro e nos prender a ele, queremos que o “nós” esteja firme como um nó. Ilusão.
Com o outro, não fazemos nós; só podemos fazer laços. O nós com o outro é a ilusão da ligação definitiva, perene. Não existe. O nó só pode ser dado em si mesmo. É sempre cego, como a paixão. O amor, ao contrário, vê o outro, e reconhece que só há ligação se o outro também a deseja. Daí a fragilidade da relação amorosa: ela não depende só de mim.
Por isso, com o outro fazemos apenas laços, metáfora da precariedade de sua permanência.
O nó embola, o laço enfeita. O nó aprisiona, o laço respeita a liberdade. O nó nega o outro. O laço reconhece a necessidade de cativá-lo permanentemente. O nó representa a ilusão da reciprocidade da relação, o laço representa a unilateralidade do vínculo. O nó quer o nó do outro, quer nós. O laço não exige o abandono da singularidade.
Separar do outro não é desfazer o “nós”, nem desfazer nós. Separar é desfazer o laço. Dói mais quando acreditamos na paixão, ilusão do “nós”, porque depois do laço desfeito, ficamos com nossos nós para desembolar sozinhos. Sentimo-nos, literalmente, arrebentados, o que exige reconstruir o eu, que nunca deveria ter deixado de sê-lo, pessoa primeira do singular. Por isso, não podemos falar em nosso amor. O amor é unilateral, parte sempre do eu para o outro. O amor do outro, a ele lhe pertence. Se existe, não sei. Com sorte, podemos falar em nossos amores, que são dois.
Quando o outro parte, desfaz-se o laço, mas o meu amor permanece. Quando compreendemos que o amor é o encontro de duas singularidades, deixamos de temer os nós, pois este amor não prende, liberta. Já a paixão, ilusão do plural reunido em um pronome, é a projeção do eu que busca o nó consigo mesmo. A paixão é cega, o amor é pré-vidente. A paixão consome, o amor cuida.
Só amamos quando aceitamos a absoluta solidão do ser, quando reconhecemos que o outro não vai acabar com a falta que origina o nosso desejo. Amar exige aceitar a precariedade dos laços, reconhecer-se separado para ver-se ligado, conhecer seus limites para contemplar o outro. Amor é devoção, é manifestar a gratidão por quem te faz sentir ligado, quando na verdade somos sós. O amor é o presente de sentir que existe o laço com outro ser, quando na verdade vivemos o abismo do abandono diante do mistério da vida e da morte. Diante do milagre do amor, o outro é o altar onde eu celebro o mistério. Devo tocá-lo com o cuidado que o sagrado exige. Nossa união deve ter a delicadeza de um laço.




Roberto Patrus-Pena - Colunista de Plurale, colaborando com um artigo por mês sobre Sustentabilidade. É Pesquisador e professor do Mestrado e Doutorado em Administração da PUC Minas, filósofo, psicólogo e psicoterapeuta.


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